Endividamento no campo dispara – o que está acontecendo?
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Margens achatadas, custos em alta e preços em queda: produtores rurais enfrentam a pior crise financeira dos últimos anos. Em Mato Grosso, a FAMATO atua na articulação política e na defesa institucional, mas alerta: "O produtor precisa cuidar do próprio negócio".
CENÁRIO DE TEMPESTADE PERFEITA
O agronegócio brasileiro, um dos pilares da economia nacional, vive um paradoxo. Apesar da alta produtividade, da tecnologia de ponta e da liderança global na produção de grãos e proteína animal, o produtor rural está cada vez mais endividado. Em Mato Grosso, maior estado produtor do país, a situação se agrava com a combinação de três fatores: custos de produção disparados, preços de commodities em queda e acesso restrito ao crédito.
"Hoje, o produtor está fechando com prejuízo, principalmente na soja. Pagar tributos como o FETAB 2 em cima de um negócio que está te dando negativo fica impossível", afirma Vilmes Sebastião Tomaim, agricultor e presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (FAMATO).
Segundo ele, o custo dos fertilizantes – dos quais o Brasil importa cerca de 80% – explodiu em razão das guerras e da alta do petróleo. O óleo diesel também pesa no bolso. E o mercado internacional dita os preços: "Não é a gente que vai ditar preço em Chicago", resume Tomaim.
ENDIVIDAMENTO: UM PROBLEMA ESTRUTURAL
Levantamentos internos da FAMATO, feitos por meio do IMEA (Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária), mostram que a margem líquida do produtor de soja em Mato Grosso tem operado negativa em várias regiões. Isso significa que plantar a próxima safra pode gerar mais prejuízo do que receita.
"A gente ouve produtores dizendo que não compensa plantar. E, matematicamente, eles estão certos", admite o presidente da federação.
A situação é agravada pela dificuldade de repactuação de dívidas. Os bancos exigem a atualização de garantias – como cessões fiduciárias –, o que coloca o patrimônio do produtor em risco. "Eu aconselho a não fazer isso. Você está colocando seu patrimônio em jogo", alerta Tomaim.
A ATUAÇÃO DA FAMATO: ESCUDO DE PROTEÇÃO
Diante desse cenário, a FAMATO tem atuado em três frentes principais:
1. Articulação política – diálogo direto com o governo estadual e a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA).
2. Suporte técnico – por meio do SENAR (capacitação) e do IMEA (dados econômicos).
3. Defesa jurídica – acompanhamento de projetos de lei e ações no STF, STJ, tribunais estaduais e federais.
A principal conquista recente da federação foi a decisão do governo de Mato Grosso de não renovar o FETAB 2 e congelar o FETAB 1 até que os preços das commodities se recuperem. A medida, anunciada após reuniões do governador Ottaviano Piveta (ele próprio produtor rural), representa um alívio temporário, mas não resolve o problema estrutural.
"O governo entendeu a dor do produtor porque ele também é produtor. Apresentamos os dados com responsabilidade, e ele viu que era preciso fazer alguma coisa", comemora Tomaim.
MORATÓRIA DA SOJA: CARTEL OU PROTEÇÃO AMBIENTAL?
Outro tema que mobiliza a FAMATO é a Moratória da Soja. O mecanismo, criado por empresas signatárias por meio da associação BIOV, impede a compra de soja plantada em áreas desmatadas na Amazônia após 2008. Para o presidente da federação, trata-se de um cartel protecionista.
"Isso fere a soberania nacional. O Brasil tem o Código Florestal mais restritivo do mundo. A Europa não tem nada parecido. Por que uma empresa estrangeira pode impor regras extras acima da nossa lei?", questiona.
A federação participa de audiência de conciliação no STF sobre o tema. Tomaim observa que várias empresas já pediram desfiliação da BIOV, mas o conceito da moratória ainda vigora. "A ilegalidade não é aceita. Mas a exploração legal dentro da lei brasileira tem que ser respeitada", defende.
DESAFIOS ALÉM DA PORTEIRA
Segundo o dirigente, o principal desafio do produtor rural hoje está fora da porteira: decisões legislativas, políticas públicas, insegurança jurídica e a falta de compreensão da sociedade sobre o papel do agro.
"O agro é visto como vilão. Mas nós geramos 56% do PIB de Mato Grosso, pagamos bilhões em tributos, empregamos milhões de pessoas e ainda preservamos o meio ambiente. O produtor de hoje não comete crime ambiental", afirma.
Ele cita números: só com o FET, o produtor mato-grossense contribuiu com R$ 17,8 bilhões nos últimos anos, viabilizando a recuperação de 7 mil km de rodovias estaduais. "Isso não é para o produtor, é para a sociedade inteira", ressalta.
A federação também alerta para riscos de insegurança jurídica: áreas de conservação, demarcação de terras indígenas, zoneamento e regularização fundiária são bandeiras constantes. A FAMATO mantém mais de 130 comissões técnicas para acompanhar essas pautas.
O QUE FAZER AGORA? ORIENTAÇÕES DA FAMATO
Diante do endividamento crescente, a FAMATO recomenda aos produtores:
- Não repactuar dívidas com novas garantias reais sem análise jurídica criteriosa.
- Avaliar caso a caso linhas de crédito dolarizadas (podem ser vantajosas ou não).
- Participar das reuniões do Fórum Agro e dos sindicatos rurais – a defesa coletiva é mais forte.
- Usar os serviços do SENAR para capacitação e gestão, reduzindo desperdícios e aumentando eficiência.
- Cobrar posicionamento de candidatos nas eleições – a FAMATO não direciona voto, mas promove o debate.
"O produtor tem uma zona de conforto. Ele delega para o presidente da federação, para o presidente da associação, e espera o resultado. Mas nem sempre é do jeito que a gente espera. Ele precisa cuidar do próprio negócio", conclui Tomaim.
PERSPECTIVAS E PRÓXIMOS PASSOS
A curto prazo, a FAMATO aposta em medidas emergenciais: equalização de juros para repactuação de dívidas, linhas de crédito específicas para custeio e investimento, e a continuidade do congelamento do FETAB 1.
A médio e longo prazos, o presidente defende uma política nacional de fertilizantes, com exploração de jazidas brasileiras, e uma mudança na comunicação do agro com a sociedade. "Lá fora, o produtor é respeitado. Aqui no Brasil, ele é criticado. Isso precisa mudar."
Enquanto isso, a federação segue atuando em Brasília, no STF, na Assembleia Legislativa e no dia a dia das fazendas. "A gente já passou por tantas crises. Por que não vamos passar por mais esta? Tenho fé que o governo, na hora da cruzilhada, vai acolher o produtor", finaliza Tomaim.
FICHA TÉCNICA
Entrevistado: Vilmes Sebastião Tomaim – produtor rural e presidente da FAMATO
Reportagem baseada em: Podcast Agro de Primeira (episódio sobre endividamento no campo)
Principais temas abordados: Endividamento, FETAB, Moratória da Soja, custos de produção, atuação institucional, fertilizantes, cenário eleitoral.
Público-alvo: Produtores rurais, agentes do agronegócio, formuladores de políticas públicas e sociedade em geral.







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