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Estiagem atinge 640 mil hectares no sul de MS e derruba para 41,2% as lavouras em boas condições

  • 22 de abr.
  • 4 min de leitura

Seca prolongada entre janeiro e fevereiro comprometeu o enchimento dos grãos em municípios estratégicos; comercialização da safra chegou a apenas 42,5% e preço da saca cai 8,3% em um ano.

CAMPO GRANDE – A estiagem que castigou o sul de Mato Grosso do Sul entre janeiro e fevereiro já se reflete nos números da safra de soja 2025/2026. De acordo com boletim técnico divulgado pela Aprosoja (Associação dos Produtores de Soja e Milho), com informações consolidadas até o dia 13 de abril, mais de 640 mil hectares de lavouras foram afetados pela falta de chuvas. O resultado é um expressivo recuo na qualidade das áreas: apenas 41,2% das lavouras da região sul foram classificadas em boas condições.


O quadro é o mais delicado entre as regiões produtoras do Estado. Outros 44,2% das áreas aparecem como regulares, e 14,6% foram enquadradas na condição ruim – um patamar considerado alarmante por técnicos e produtores.


“Nunca vimos uma piora tão rápida em um intervalo de poucos meses. Em dezembro, mais de 75% das áreas do sul estavam boas. O verão foi cruel”, afirma o engenheiro-agrônomo e consultor da Aprosoja, Paulo César de Oliveira.


Veranicos de até 20 dias e temperaturas elevadas

A estiagem não foi um evento isolado, mas sim uma combinação de veranicos prolongados (períodos sem chuva) com temperaturas acima da média. Em várias localidades do sul do Estado, a falta de precipitação persistiu por mais de 20 dias consecutivos, justamente na fase crítica de enchimento dos grãos.


Os municípios mais atingidos estão entre os mais estratégicos para a produção de grãos em Mato Grosso do Sul:


Dourados


Ponta Porã


Maracaju


Amambai


Nessas cidades, relatos de produtores dão conta de perdas localizadas que variam de 15% a 40% da produtividade esperada, dependendo do solo, da variedade semeada e do manejo adotado.


“A soja estava bonita, com bom estande. Mas vinte dias sem uma gota d’água, com sol forte e temperatura batendo 38°C, queimou a lavoura. Os grãos não encheram”, desabafa o produtor rural João Batista da Silva, que planta 1.200 hectares em Dourados.


Comercialização atrasa e preço recua

Os reflexos da estiagem não se limitam ao campo. O boletim da Aprosoja aponta que, até o dia 13 de abril, apenas 42,5% da safra 2025/2026 havia sido comercializada em Mato G Sul. O índice representa uma queda de 8 pontos percentuais na comparação com o mesmo período da safra anterior, quando o percentual negociado era superior (cerca de 50,5%).


A retração nas vendas coincide com a pressão negativa sobre os preços. No dia 13 de abril, a saca de 60 quilos de soja foi cotada, em média, a R$ 110,25 no Estado. Em apenas uma semana, a desvalorização foi de 1,07%. Na comparação anual – mesma época de 2025, quando a saca valia R$ 120,54 – a perda acumulada chega a 8,3%.


Indicador Safra 2025/2026 (até 13/04) Safra anterior (mesmo período) Variação

Lavouras em boas condições (sul) 41,2% 75%+ (dez/2025) -45% p.p.

Comercialização da safra 42,5% ~50,5% -8 p.p.

Preço médio da saca (R$) R$ 110,25 R$ 120,54 -8,3%

Cenário de incerteza para a rentabilidade

A combinação de menor produtividade (devido à estiagem) com preços mais baixos pressiona duplamente o produtor. Muitos já adiantam que a margem líquida por hectare deverá ser a menor dos últimos três anos.


“Quem fez hedge (proteção de preço) no início da safra conseguiu segurar um valor melhor. Quem ficou esperando uma alta que não veio agora está com estoque e precisando vender para pagar contas”, explica a analista de mercado da Aprosoja, Carla Mendonça.


Ela acrescenta que a queda no preço da saca não está ligada apenas à estiagem local. Fatores externos – como safra recorde da Argentina e estoques confortáveis nos Estados Unidos – também contribuem para a pressão baixista internacional.


Recomendações para a safra seguinte

Diante dos aprendizados da estiagem de 2025/2026, a Aprosoja já emite orientações para o próximo ciclo:


Zoneamento de risco climático – respeitar as janelas de plantio indicadas para cada município.


Uso de cultivares mais tolerantes ao estresse hídrico – especialmente nas áreas de solo mais arenoso do sul.


Seguro agrícola – apenas 35% da área afetada estava segurada, segundo estimativa preliminar.


Diversificação de épocas de semeadura – para diluir o risco de veranicos.


“O produtor precisa entender que o clima está mais extremo. O que antes era exceção agora se repete com mais frequência. Planejamento e gestão de risco deixaram de ser opção – são sobrevivência”, conclui Paulo César de Oliveira.


Próximos passos

A Aprosoja deve divulgar um novo boletim no início de maio, já com estimativas consolidadas de produtividade final por município. O governo estadual, por meio da Semagro, estuda a possibilidade de linhas de crédito emergenciais para os produtores mais afetados, especialmente da agricultura familiar e de médio porte.


Enquanto isso, os agricultores do sul de Mato Grosso do Sul aguardam o fim da colheita para fechar as contas. Para muitos, o prejuízo já é certo; a dúvida é apenas o tamanho.


Com informações do boletim técnico da Aprosoja (Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso do Sul), dados consolidados até 13 de abril de 2026.

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