O dia em que o "Louco" apresentou Renato Gaúcho ao mundo: 45 anos da estreia do ídolo em Maracaju
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O calendário marcava 15 de julho de 1980. Enquanto o mundo vivia a efervescência da Guerra Fria e o Brasil sonhava com a redemocratização, uma cidade de pouco mais de 10 mil habitantes no recém-criado estado de Mato Grosso do Sul se preparava para entrar — sem saber — para a história do futebol brasileiro. Naquele frio de geada, um menino magro de 17 anos, cabelos compridos ao estilo da época, vestiu pela primeira vez a camisa do time profissional do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Seu nome? Renato Portaluppi. O mundo ainda o conheceria como Renato Gaúcho.
O palco dessa estreia foi o Estádio Municipal Luiz Gonzaga Prata Braga, que ganharia o apelido que viraria sinônimo de sua própria história: o "Loucão" .
"É tempo de loucura": a visão de um prefeito
Para entender a magnitude do evento, é preciso compreender a figura à frente da empreitada. Luiz Gonzaga Prata Braga, o "Louco", governava Maracaju sob o slogan "É tempo de loucura" . Em seu primeiro mandato (1977-1982), ele não apenas administrava; ele performava. Construir um estádio com capacidade para 15 mil pessoas — mais do que a população total da cidade — era, para muitos, uma insanidade. Para ele, era uma promessa de campanha feita para eleger um amigo deputado estadual, que precisou ser cumprida .
"Eu já era prefeito, mas brigava pra tentar eleger um amigo deputado estadual, então disse pra todo mundo que se votasse nele eu iria fazer um estádio de futebol", relembrou Prata Braga em entrevista passada, com o humor que lhe era característico .
Sendo ele um torcedor apaixonado do Internacional, maior rival do Grêmio, a princípio tentou trazer o Colorado. Foi o governador Harry Amorim Costa, gaúcho e conselheiro gremista, quem ofereceu a solução: "Ele me ofereceu o Grêmio, e eu aceitei é claro (risos)" .
A chegada do ídolo e um problema inesperado
A delegação gremista desembarcou em Campo Grande e seguiu de ônibus para Maracaju. No trajeto inverso, um garoto de 11 anos, Alexandre Fialho, acompanhado do pai, Francisco, vivia a aventura de sua vida. Alexandre conseguiu um lugar no ônibus dos jogadores e sentou-se ao lado do volante China, prometendo enviar as fotos que tirava do time. O filme, ironicamente, queimou — mas a história viraria causo anos depois, quando China, ao reencontrá-lo, brincou: "Cadê minhas fotos, guri?" .
A noite anterior ao jogo, porém, reservava um perrengue. Um frio intenso e inesperado castigou a cidade, e o hotel que abrigava os jogadores não tinha cobertores suficientes. O prefeito "Louco" e Francisco Fialho saíram em uma verdadeira operação de guerra, batendo de porta em porta de conhecidos para conseguir agasalhos e resolver o problema .
15 de julho de 1980: o pontapé inicial
O dia do jogo foi um espetáculo à parte. O estádio recém-inaugurado estava abarrotado. Cadeiras foram colocadas até na beira do gramado para acomodar a multidão que superava a população local, vinda de cidades vizinhas para ver o bicampeão gaúcho .
Em campo, o Grêmio de Renato, Paulo Isidoro, Baltazar (o capitão) e tantos outros, enfrentava o Comercial, time local que disputava a Série B do Campeonato Brasileiro. Para surpresa geral, o placar marcou uma vitória heroica do time da casa por 1 a 0.
Sobre a atuação do jovem Renato, as memórias são modestas. Cecílio de Souza, que estava na arquibancada naquele dia, lembra: "Ninguém falava muito o nome dele e durante o jogo também não chamou muito a atenção" . Ninguém ali poderia imaginar que aquele garoto de passes simples se tornaria, anos depois, o maior ídolo da história do Grêmio, campeão do mundo como jogador em 1983 e multicampeão como técnico.
O legado do "Louco" e o futuro do futebol em Maracaju
O tempo passou. O menino Renato virou ídolo e técnico vitorioso. O menino Alexandre virou comerciante e contador de causos. E Luiz Gonzaga Prata Braga, o "Louco", faleceu em 10 de maio de 2021, aos 82 anos, vítima de um infarto em Rio Verde (GO), para onde viajou para conhecer os netos .
Sua morte gerou comoção em todo o estado. O então governador Reinaldo Azambuja lamentou a perda de um "homem diferente, que veio de longe e ajudou a construir a história do município" . A Câmara de Vereadores o homenageou com luto oficial e seu corpo foi velado no plenário da casa, em um último ato de despedida popular. Foi sepultado no Cemitério Parque dos Ipês, deixando a certeza de que sua "loucura" era, na verdade, a visão de quem amava sua terra .
Hoje, 45 anos depois daquela noite fria, o Estádio Loucão segue de pé, pulsante. Em 2026, o Maracaju Atlético Clube (MAC) volta a disputar o Campeonato Sul-Mato-Grossense Série A, e a praça esportiva é novamente o centro das atenções da torcida . O sonho do acesso à elite, que passou perto de se concretizar em 2025, é a nova obsessão da cidade.
Enquanto isso, Renato Gaúcho, de 63 anos, vive um período sabático. Desde setembro de 2025, quando deixou o comando do Fluminense, o treinador aproveita as férias com a família e projeta um retorno aos gramados apenas entre fevereiro e abril de 2026 .
A história de Maracaju e Renato Gaúcho é a prova viva de que o futebol brasileiro é feito de causos, coincidências e paixão. É a certeza de que um estádio construído por um "louco" foi o cenário perfeito para o primeiro capítulo da história de um craque. E que, enquanto houver bola rolando no Loucão, a memória daquele julho de 1980 e do homem que o tornou possível estará sempre presente — na arquibancada, no gramado e no coração de uma cidade inteira.








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