No Mato Grosso do Sul, o Frevo não é lembrado: é vivido

A 3.000 quilômetros de Recife, o som da trombeta não encontra o mar. Encontra o Cerrado. Encontra a poeira da Esplanada Ferroviária e o concreto dos clubes de bairro. Mas quando a Banda de Frevo ataca o primeiro acorde na noite de terça-feira de Carnaval, ninguém fica parado. O pé bate. O corpo ginga. E o Nordeste se faz presente — não como memória distante, mas como herança viva.
Uma data, dois calendários
O Dia Nacional do Frevo é celebrado em 14 de setembro, data que homenageia o jornalista Oswaldo da Silva Almeida, responsável por cunhar o termo que dá nome ao ritmo e à dança. Em Pernambuco, porém, a celebração principal ocorre em 9 de fevereiro, quando se relembra a primeira aparição da palavra "frevo" na imprensa recifense, em 1907.
No Mato Grosso do Sul, nenhuma das duas datas consta como feriado ou evento oficial de Estado. Mas nos Centros de Tradições Nordestinas (CTNs) espalhados pelo interior, o frevo não precisa de calendário. Ele pulsa onde a comunidade nordestina se reúne — e essa comunidade é numerosa. Em cidades como Corumbá, Dourados e Campo Grande, o ritmo pernambucano encontrou solo fértil.
O Bloco do Frevo de Corumbá: resistência no Pantanal
Em Corumbá, cidade mais antiga de MS e porta de entrada do Pantanal, o frevo não é visita esporádica. É presença permanente. O município mantém um Bloco do Frevo ativo, com aulas gratuitas oferecidas pela Fundação da Cultura desde janeiro de cada ano.
“O objetivo é fortalecer a cultura popular e preparar novos integrantes para o Bloco do Frevo” — Prefeitura de Corumbá
As aulas, voltadas a participantes a partir de 8 anos, acontecem diariamente na sede da Oficina de Dança, no centro histórico.
Em janeiro de 2026, durante o lançamento oficial do Carnaval, o Bloco do Frevo desfilou com seu estandarte ao lado das alas tradicionais da cidade — Pastoras, Palhaços e Cordões — em um cortejo que celebrou os 20 anos da retomada do Carnaval Cultural corumbaense. Ao som do frevo, dançarinos da Oficina de Dança se apresentaram para autoridades e moradores, mostrando que o ritmo pernambucano é parte indissociável da identidade carnavalesca local.
Cordão Valu: o frevo que virou resistência em Campo Grande
Na capital, o frevo encontrou seu espaço não nos CTNs, mas nas ruas. O Cordão Valu, bloco carnavalesco mais tradicional de Campo Grande, completou 20 anos em 2026 e reservou um lugar de honra para o ritmo pernambucano em sua programação.
Na terça-feira de Carnaval (17 de fevereiro), o segundo cortejo do bloco foi conduzido pela Banda de Frevo e pelo músico Vinil Moraes, que puxou o ritmo pelas ruas da Esplanada Ferroviária. A escolha não foi acidental. O Cordão Valu nasceu com a proposta de ocupar o espaço público com cultura popular — e o frevo, com sua energia “fervente”, encarna essa vocação.
“A diversidade de ritmos sempre fez parte do Carnaval. O forró também integra essa riqueza cultural. O frevo é uma dessas expressões que representam nossa identidade.” — Acelino Rodrigues Carvalho, músico do grupo Terra Seca
CTNs: a celebração que não cabe no calendário
Se em Pernambuco o frevo é celebrado com orquestras nas ladeiras de Olinda e cortejos no Recife Antigo, no Mato Grosso do Sul a celebração assume outra forma. Ela acontece nos jantares dançantes, nas festas juninas e nos encontros de forró promovidos pelos CTNs.
O CTN Asa Branca, em Dourados, é o exemplo mais emblemático. Fundado em 1996, o centro completou 30 anos em 2026 com um jantar dançante no Clube Indaiá, embalado pelo grupo Terra Seca e pelo autêntico forró pé de serra. O frevo, nesse contexto, aparece como trilha sonora da confraternização — não como peça de museu, mas como parte de um repertório maior que celebra a nordestinidade.
“Desses 30 anos de fundação, das 12 diretorias eleitas que passaram, a nossa nunca mediu esforços para promover a integração de pessoas e culturas” — Simônia Siqueira, presidente do CTN Asa Branca
O CTN Asa Branca é reconhecido como Entidade de Utilidade Pública Municipal e realiza anualmente a Festsol (Festa da Carne de Sol), evento incluído no Calendário Oficial de Eventos do Estado de MS.
Mais ao norte, em Chapadão do Sul, o CTN Gonzagão também mantém viva a chama nordestina. Em 24 de maio de 2026, promoveu a 1ª Festa do Milho na Feira do Produtor, com comidas típicas, show ao vivo e diversas atrações. E no dia 14 de setembro, ironicamente o Dia Nacional do Frevo, o CTN Gonzagão convocou seus associados para uma Assembleia Geral para eleição da nova diretoria. A data não passou em branco — apenas foi preenchida com outra forma de celebração: a democracia comunitária.
A distância que aproxima
Há uma pergunta que insiste: por que o frevo, sendo uma expressão tão marcante da cultura nordestina, não tem no MS a mesma centralidade que o forró? A resposta talvez esteja na própria natureza dos dois ritmos.
O forró é agregador. Pede o salão, o par, o copo na mesa. O frevo é expansivo. Pede a rua, o cortejo, o corpo em movimento. Em uma cidade como Campo Grande, onde a comunidade nordestina se reúne principalmente em espaços fechados — clubes, CTNs, restaurantes —, o forró naturalmente ocupa mais espaço. Mas o frevo não desapareceu. Ele se adaptou.
Na Oficina de Dança de Corumbá, adolescentes aprendem os passos do frevo como parte de sua formação cultural. No Cordão Valu, o frevo sai às ruas todo Carnaval, conduzido por uma banda que faz questão de mantê-lo vivo. E nos intervalos dos festivais nordestinos, como o Festival Arretado realizado no ParkShopping Campo Grande em junho, grupos de frevo e capoeira sobem ao palco para lembrar que a nordestinidade não se resume ao triângulo e à sanfona.
Uma celebração que não precisa de data
Em 14 de setembro de 2026, enquanto o Paço do Frevo, no Recife, encerrava sua programação especial com visitação gratuita, vivências de dança e apresentações da Orquestra Paranampuká, no Mato Grosso do Sul o dia transcorreu sem grandes eventos oficiais.
Mas quem conhece a comunidade nordestina de MS sabe: o frevo não se celebra apenas no dia 14 de setembro. Celebra-se quando um grupo de amigos se reúne em um CTN e alguém pede “aquela música”. Celebra-se quando uma criança de Corumbá aprende o passo pela primeira vez na Oficina de Dança. Celebra-se quando a Banda de Frevo entra na Esplanada Ferroviária e o público, independentemente da origem, sente o corpo responder.
O frevo, afinal, vem de “ferver”. E no Mato Grosso do Sul, o caldeirão cultural nunca parou de borbulhar.







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