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Clima e Câmbio Apertam o Cerco: Produtores de MS Enfrentam a Tempestade Perfeita na Colheita da Soja

  • há 6 horas
  • 4 min de leitura

Enquanto as colheitadeiras avançam lentamente sobre os campos de Mato Grosso do Sul, o semblante dos produtores rurais reflete um misto de apreensão e cálculo. A safra 2025/2026, que prometia ser mais uma de recordes, está se transformando em um teste de resiliência para o setor. O que se vê no estado é o resultado de uma equação cruel: o excesso de chuvas que atrasa a colheita, combinado com um câmbio que tira o sono de quem vive da exportação.

Em fevereiro de 2026, a saca de soja em Mato Grosso do Sul sentiu a pressão. Em Dourados, uma das principais praças do estado, o preço recuou para R$ 111,50, enquanto em Campo Grande, a saca era negociada a R$ 105,00 . Os números, já apertados, escondem uma realidade ainda mais dura no interior, onde os custos logísticos e de secagem dos grãos corroem qualquer margem que poderia restar.

A Dança das Chuvas e o Calendário Perdido

O grande vilão desta safra, até o momento, tem sido o clima. Após um janeiro marcado por instabilidades, as chuvas persistentes em fevereiro transformaram a reta final da colheita em uma corrida contra o tempo . Dados da Aprosoja/MS mostram que, no início de fevereiro, a colheita estava 11,1 pontos percentuais mais lenta em comparação com o mesmo período do ano passado, alcançando apenas 6,2% da área estimada .

A trégua nas precipitações no final de fevereiro finalmente permitiu algum avanço das máquinas, mas o estrago já estava feito . A umidade elevada não só impediu a entrada nas lavouras como também elevou drasticamente os custos de secagem dos grãos e aumentou o temor quanto à perda de qualidade do produto .

"O produtor enfrenta uma decisão difícil: colher o grão com umidade acima do ideal, arcando com custos maiores de secagem e o risco de desconto na hora da venda, ou esperar o tempo firmar e correr o risco de a lavoura debulhar ou perder qualidade no campo", explica uma análise do setor. O atraso na colheita da soja também compromete o calendário de plantio do milho safrinha, a próxima aposta de renda do produtor, que já está sendo semeado com atraso em diversas regiões do estado .

O Dólar e a Rentabilidade Esvaecida

Se o clima é a dor de cabeça imediata no campo, o câmbio é o pesadelo nos escritórios das fazendas. A soja, commodity precificada em dólar no mercado internacional, sofre diretamente quando a moeda norte-americana perde força frente ao Real. Em fevereiro, apesar de uma expressiva valorização do dólar ter tornado os produtos brasileiros mais atrativos no exterior, o preço médio de exportação da soja brasileira foi de US$ 23,91 por saca, uma queda de 19,7% em relação ao mesmo período de 2014 .

Para o produtor sul-mato-grossense, que recebe em Reais, a conta não fecha com facilidade. Embora o câmbio mais favorável para importação possa baratear insumos como fertilizantes para a próxima safra, no momento da venda, o "dólar baixo" comprime a rentabilidade. Projeções indicam que, com a pressão sobre os preços, a margem do produtor está significativamente comprimida, em alguns casos próxima do ponto de equilíbrio. Em Mato Grosso, por exemplo, onde a colheita está mais adiantada (65,75%), os preços já chegam a patamares preocupantes de R$ 99,00 por saca em municípios como Sapezal .

Um Mapa de Contrastes

O cenário sul-mato-grossense, no entanto, não é homogêneo e reflete as idiossincrasias do clima tropical. Enquanto no norte do estado as lavouras apresentavam melhores condições no início do ciclo, a região sul, que engloba municípios como Dourados, Ponta Porã e Maracaju, sofreu com veranicos severos em janeiro, com períodos de estiagem superiores a 20 dias, o que deve impactar a produtividade final .

A combinação de atraso na colheita, despesas extras com logística e secagem, e preços pressionados pelo câmbio cria um cenário de alerta. A estimativa da Aprosoja/MS para a safra é de uma produção de 15,195 milhões de toneladas em uma área de 4,794 milhões de hectares . O número é expressivo, mas a dúvida que paira no ar é: a que preço essa produção será convertida em lucro?

Estratégias para Navegar na Tempestade

Diante deste "ano mais difícil", como classificado pelo ministro da Agricultura, a palavra de ordem entre os consultores é gestão de risco. Aos produtores que ainda não venderam grande parte da safra, recomenda-se cautela e estratégias defensivas.

"O momento não é de pânico, mas de planejamento. As vendas escalonadas e o uso de ferramentas de proteção cambial (hedge) são fundamentais para garantir um fluxo de caixa mínimo e evitar que a volatilidade do câmbio e dos preços determine o sucesso ou o fracasso da safra", orientam especialistas.

Enquanto o tempo não dá uma trégua definitiva e o câmbio não encontra um patamar estável, o produtor de Mato Grosso do Sul segue no volante de sua colheitadeira, olhando para o céu e para as cotações, na esperança de que as janelas de oportunidade se abram antes que a safra 2025/2026 se transforme em um ano para esquecer.

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