Polilaminina: A promessa brasileira que pode reescrever o futuro das lesões medulares
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Pesquisadores da UFRJ iniciam testes oficiais em humanos com substância capaz de regenerar a medula espinhal; resultado animador em estudo piloto acende esperança de 13 mil brasileiros que sofrem lesões por ano
Por Juliana Mendes, da Agência Saúde em Foco
05 de março de 2026
Eram 23h47 de uma terça-feira quando a moto de Rafael Santos, 27 anos, derrapou na pista molhada da Avenida Brasil. O acidente lhe custou os movimentos das pernas. "O médico disse que minha medula foi 'seccionada' e que eu nunca mais andaria. Tinha 25 anos e ouvi aquilo como uma sentença de morte em vida", relembra o hoje paraplégico, dois anos após o ocorrido.
Histórias como a de Rafael se repetem cerca de 13 mil vezes por ano no Brasil, segundo estimativas do Ministério da Saúde. Para a maioria, a realidade é uma adaptação forçada à cadeira de rodas e a certeza, repetida por gerações de médicos, de que neurônios da medula espinhal, uma vez danificados, não se regeneram.
Mas essa certeza pode estar com os dias contados. E a mudança pode ter assinatura brasileira.
No início deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início oficial da Fase 1 de testes clínicos da polilaminina, uma substância desenvolvida na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que promete fazer o que antes parecia impossível: reconectar os "fios" rompidos da medula espinhal.
O que é essa substância?
Imagine um prédio desabado após um terremoto. Os escombros estão espalhados, e as conexões elétricas, rompidas. A polilaminina funciona como um andaime biológico que reorganiza os escombros e refaz a fiação.
Desenvolvida ao longo de 20 anos de pesquisa pela equipe da professora Tatiana Sampaio, no Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (UFRJ), a substância é uma versão sintética da laminina – uma proteína que nosso corpo produz naturalmente e que atua como uma "cola" entre as células, guiando o crescimento dos neurônios durante a formação do sistema nervoso.
"O que fizemos foi pegar a parte mais ativa dessa proteína, reproduzi-la em laboratório e potencializá-la", explica Sampaio. "Na lesão medular, o corpo até tenta se regenerar, mas não consegue. A polilaminina cria uma ponte, um caminho por onde os axônios [prolongamentos dos neurônios] podem crescer e restabelecer as conexões."
O estudo piloto que acendeu o alerta
Antes de chegar à fase regulatória oficial, a equipe da UFRJ realizou um estudo piloto com oito pacientes que sofreram lesões medulares completas e graves. O resultado, ainda não publicado em revista científica com revisão por pares (o que exige cautela da comunidade médica), chamou a atenção: seis dos oito pacientes (75%) apresentaram alguma recuperação dos movimentos.
Para se ter ideia, a taxa de recuperação espontânea nesses casos gira em torno de 15%.
Entre os pacientes que responderam ao tratamento, alguns recuperaram movimentos de flexão dos dedos dos pés; outros, a capacidade de mover as pernas. Houve quem voltasse a sentir a bexiga cheia – um marco importante, já que o controle dos esfíncteres é uma das maiores perdas de qualidade de vida para lesados medulares.
"Ver um paciente que não mexia um dedo começar a flexionar o pé é algo que te faz esquecer 20 anos de laboratório", emociona-se a pesquisadora.
A fase 1: segurança em primeiro lugar
Com a autorização da Anvisa em janeiro, começa agora a Fase 1 dos estudos clínicos oficiais. Diferentemente do que muitos imaginam, o objetivo desta etapa não é comprovar que a polilaminina faz as pessoas andarem de novo.
"Estamos avaliando segurança e tolerabilidade. Precisamos saber qual a dose ideal, se há efeitos colaterais, como o organismo reage à substância", detalha o neurocirurgião Marcos Duarte, coordenador da parte clínica do estudo. "A eficácia será testada nas fases 2 e 3, se tudo correr bem agora."
Nesta primeira etapa, cinco pacientes com lesões agudas (ocorridas há no máximo 72 horas) serão selecionados para receber a aplicação durante cirurgia. A escolha por lesões recentes não é casual.
A corrida contra o tempo
A janela de oportunidade para a polilaminina é estreita: no máximo 72 horas após o trauma. Isso porque, passado esse período, o corpo inicia um processo de cicatrização que forma uma barreira física e química – a chamada cicatriz glial – que impede a regeneração.
"Aplicamos a substância diretamente no local da lesão, durante o procedimento cirúrgico de estabilização da coluna", explica Duarte. "Ela atua antes que essa cicatriz se feche, criando um ambiente favorável para que os neurônios tentem se reconectar."
Isso significa que, por enquanto, pacientes com lesões antigas (crônicas) não podem ser incluídos nos testes. "Não temos evidência de que funcione nesses casos. A ciência está começando agora", pondera Sampaio.
A esperança e a cautela
A notícia da autorização dos testes gerou uma onda de esperança em milhares de famílias. Grupos de WhatsApp e redes sociais de pessoas com lesão medular se encheram de perguntas: "Quando estará disponível?", "Como posso participar?", "Meu filho, que sofreu acidente há cinco anos, pode ser tratado?".
A pressão é tanta que algumas famílias já recorreram à Justiça para obter a substância fora dos protocolos de pesquisa – as chamadas liminares. Uma situação que preocupa os cientistas.
"Entendemos a desesperança de quem convive com a lesão, mas aplicar um tratamento experimental fora do ambiente controlado é arriscado", alerta Sampaio. "Não sabemos quais são todos os efeitos adversos. Se algo der errado, não há protocolo de resgate. Além disso, não coletamos dados, não aprendemos com aquele caso. É um tiro no escuro que pode atrasar todo o processo."
O caminho até o paciente
Mesmo que a Fase 1 seja concluída com sucesso, a jornada é longa. Estima-se que, entre as fases 1, 2 e 3, o processo leve de 5 a 10 anos até que a substância possa ser registrada como medicamento e comercializada.
"Estamos falando de um tratamento que pode revolucionar a neurologia, mas revoluções científicas não acontecem da noite para o dia", pondera o neurocirurgião. "Paciência e rigor são nossos melhores aliados."
Enquanto isso, a comunidade científica internacional observa com atenção. Se os testes brasileiros confirmarem o potencial observado no estudo piloto, a polilaminina pode se tornar o primeiro tratamento eficaz para lesões medulares em todo o mundo.
Rafael, o motociclista do início da reportagem, acompanha as notícias de longe. "Sei que não vou me beneficiar agora, que meu caso é antigo. Mas se isso significar que daqui a alguns anos um garoto que sofrer um acidente como o meu possa ter uma chance diferente... já valeu a pena."
ENTENDA A POLILAMININA EM 5 PONTOS
| O que é | Substância criada em laboratório a partir da laminina, proteína natural que orienta o crescimento de neurônios |
| Como age | Funciona como um andaime que estimula os axônios (prolongamentos dos neurônios) a se reconectarem no local da lesão |
| Estágio atual | Fase 1 de testes clínicos autorizada pela Anvisa para avaliar segurança em 5 pacientes com lesões agudas (até 72h) |
| Disponibilidade | Não está disponível para venda ou uso geral; aplicação restrita a protocolos de pesquisa |
| Prazo estimado | Se aprovada em todas as fases, pode chegar ao mercado em 5 a 10 anos |
O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS
Academia Brasileira de Neurologia, em nota: "A polilaminina representa uma linha de pesquisa promissora. No entanto, é fundamental aguardar a conclusão das fases regulatórias para que possamos ter dados robustos sobre segurança e eficácia."
Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência: "A ciência brasileira está de parabéns pela pesquisa de ponta. Mas é preciso cautela para não criar falsas expectativas na população enquanto os estudos não estiverem concluídos."





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