"Perseguida, enforcada e com o carro destruído: a noite de horror de uma mulher em Maracaju"
- há 5 dias
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Especialistas alertam: relacionamento abusivo não é briga de casal, é crime. Denunciar pode salvar vidas.
A história poderia ser mais uma estatística. Na manhã da última quarta-feira (18), uma mulher de 30 anos, em Maracaju, viveu o ápice de um pesadelo que já durava três anos. Após tentar se afastar do companheiro de 32 anos, ela foi perseguida, ameaçada de morte, enforcada e violentada sexualmente. A gota d'água? O agressor usou uma marreta para destruir o carro da vítima enquanto ela assistia, indefesa.
O caso, registrado no 15º Batalhão da Polícia Militar, não é um fato isolado. É o retrato cruel de milhares de mulheres brasileiras que vivem aprisionadas em relacionamentos abusivos, muitas vezes sem saber que estão correndo risco de morte.
"No começo eram só empurrões"
O boletim de ocorrência revela um padrão clássico da violência doméstica: o escalonamento. Em agosto de 2025, a mesma mulher já havia acionado a polícia após sofrer ofensas verbais e empurrões. Na ocasião, ela optou por não representar criminalmente contra o autor, informando que deixaria a cidade.
A psicanalista Sirlene Borges destaca que a violência doméstica causa danos psicológicos significativos, como depressão, ansiedade e baixa autoestima. Quem presencia também sofre traumas. É necessária a conscientização social e a mudança na mentalidade sobre os papéis de gênero para combater a banalização da violência contra a mulher. O perfil do agressor é sempre o mesmo: "anjo na rua / demônio em casa". Em público, ele nega os abusos e coloca sobre a vítima a culpa. A violência contra a mulher deixa danos no físico e no psicológico. Reconhecer o agressor o quanto antes é crucial para se libertar dessas agressões, que muitas vezes matam a psique antes mesmo do corpo. Não se cale, busque ajuda.
O que era violência psicológica, virou física. O que era física, virou sexual. E ontem, por pouco, não virou feminicídio. Estatisticamente, a tentativa de enforcamento – relatada pela vítima – é um dos principais indicadores de que o agressor está pronto para matar.
Os sinais que ninguém vê (ou prefere ignorar)
Muitas pessoas ainda acreditam que violência doméstica se resume a socos e tapas. Mas a lei brasileira (Lei Maria da Penha) é clara: existem cinco tipos de violência, e todas são crime.
No caso de Maracaju, a mulher sofreu pelo menos quatro delas em menos de 24 horas:
Violência Psicológica: Ameaças de morte e perseguição.
Violência Física: Tentativa de estrangulamento e marcas nos braços.
Violência Sexual: Relação sexual forçada no hotel.
Violência Patrimonial: Destruição do veículo com marreta.
"Quando a mulher percebe que o relacionamento não é saudável, muitas vezes já é tarde. O agressor já instalou o medo e o controle. Por isso, a denúncia precoce é essencial", alerta uma assistente social ouvida pela reportagem.
Por que as vítimas não denunciam?
A pergunta que ecoa nas redes sociais é sempre a mesma: "Por que ela não sai dessa vida?". A resposta é complexa. Medo de morrer, dependência financeira, vergonha, isolamento social e a esperança de que o parceiro mude são os principais fatores.
No caso em questão, a vítima tentou se afastar. Ficou três dias em um hotel. Mas o agressor a localizou. Isso se chama stalking (perseguição), também crime no Brasil. "Ele não aceita o fim. Ele a trata como propriedade. Se ela tentar sair, ele mata. É o que chamamos de crime por ódio à perda do controle", explica um psicólogo criminal.
"Denunciar não é destruir uma família, é salvar uma vida"
A Polícia Militar reforça que a denúncia anônima ou presencial é a principal ferramenta para interromper o ciclo de violência.
"Conte sempre com o 15º BPM!", diz a nota oficial ao final do registro da ocorrência. Mas contar com a polícia só é possível se o crime for comunicado.
Os canais de denúncia funcionam 24 horas:
190: Emergência – quando a agressão está acontecendo.
180: Central de Atendimento à Mulher – para orientação e denúncias.
Delegacia da Mulher: Para registro de boletim de ocorrência e pedido de Medidas Protetivas.
O fim do caso
O suspeito foi levado à delegacia, mas foi liberado? O texto não esclarece se ele permaneceu preso. O que se sabe é que a vítima apresentava marcas nos braços (de agressões anteriores, já cicatrizadas) e um medo estampado no rosto que nenhuma marreta pode destruir.
Ela sobreviveu dessa vez. Mas quantas não sobrevivem? Em 2026, os números de feminicídio seguem alarmantes.
A mensagem final é clara: Se você passa por isso, não espere a marreta virar punho, o punho virar enforcamento e o enforcamento virar morte. Denuncie. Uma simples ligação pode ser a diferença entre a vida e a estatística.





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