Onde o Trânsito Virou uma Roleta-Russa e o Álcool é o Gatilho
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O que deveria ser um exercício de cidadania e convivência virou uma disputa desigual onde pedestres, ciclistas, motociclistas e motoristas parecem habitar mundos paralelos, e não a mesma via pública.
Basta observar o cotidiano para perceber a erosão do respeito mútuo. A faixa de pedestre, que deveria ser um símbolo sagrado de prioridade à vida, é frequentemente tratada como mera sugestão ou enfeite de asfalto. O pedestre já não se sente seguro ao pisar na faixa; ele espera, negocia com o olhar e reza para que o motorista pare. É a inversão completa da lógica: o mais forte dita a regra, e o mais fraco que se adapte.
E o que dizer da seta? Esse mecanismo simples, criado para comunicar intenções e evitar colisões, parece ter virado item opcional ou de luxo em muitos veículos. A falta dela transforma o trânsito em um jogo de adivinhação perigoso: "Será que ele vai virar? Vai seguir reto?". É a comunicação zero, o "cada um por si" que transforma conversões em atos de fé e cruzamentos em zonas de conflito.
Mas se o desafio da comunicação já é grave, há um inimigo silencioso que tem tomado conta dos volantes e guidões da cidade: a tela do celular. Hoje, é cena comum ver motoristas desviando o olhar da pista para responder a uma mensagem, rolar o feed das redes sociais ou até mesmo filmar situações no trânsito enquanto dirigem. O que muitos tratam como uma "rápida olhadinha" é, na verdade, um ato de negligência comparável à embriaguez. Estudos mostram que digitar uma mensagem ao volante pode tirar os olhos da estrada por até 5 segundos — tempo mais que suficiente, a 60 km/h, para percorrer a distância de um campo de futebol sem qualquer visão do que acontece à frente.
Se o dia a dia já é caótico, com motoristas conectados e desconectados da realidade ao redor, é no fim de semana que o perigo atinge seu ápice. A noite de sábado, que deveria ser sinônimo de lazer e descanso, torna-se um período de alto risco. A cena se repete: bares cheios, consumo de álcool e, inevitavelmente, a irresponsabilidade de quem decide pegar no volante (ou no guidão) após algumas doses.
A notícia recente do sinistro na Rua Ramão Paré é um retrato fiel dessa realidade perigosa. Um homem de 51 anos conduzindo uma motoneta pela contramão, com sinais visíveis de embriaguez, levando um passageiro de 42 anos na garupa. O cenário estava armado para uma tragédia. Por sorte, a condutora do carro, que respeitava as regras, reduziu e tentou desviar, evitando o pior. Mas a cena dos ocupantes da motoneta caídos ao chão, com dificuldade de equilíbrio e sem recordação do ocorrido, escancara a normalização de um comportamento criminoso.
E não para por aí: a motoneta sem placa, com motor de possível origem paraguaia, circulando livremente. A recusa inicial em se identificar. O condutor que "não se lembra". É um emaranhado de ilegalidades que coloca em xeque a eficácia da nossa fiscalização e a responsabilidade individual.
Some-se a isso a epidemia de olhos grudados em telas. Quantas vezes não vemos motociclistas com uma mão no guidão e outra no celular? Ou motoristas parados no semáforo que, quando o sinal abre, precisam de segundos extras para largar o aparelho e só então acelerar? A combinação é mortal: álcool, celular e desrespeito às regras básicas formam um coquetel explosivo que transforma vias como a Rua Ramão Paré, a Zebulandia ou a major Carlos em verdadeiras pistas de risco.
O que estamos cultivando em Maracaju? Uma cultura onde a lei do mais rápido ou do mais alterado prevalece? Onde a vida de uma família que volta para casa, de uma criança brincando na calçada ou de um trabalhador na moto é colocada em risco por alguém que acha que "tem experiência" para dirigir depois de beber ou que "só vai responder uma mensagem rápida"?
A Polícia Militar alerta: álcool e direção não combinam. O Código de Trânsito é claro: usar o celular ao volante é infração gravíssima. Mas esses alertas precisam ecoar muito além dos boletins de ocorrência. Precisam ecoar nas mesas dos bares, nas rodas de conversa e, principalmente, na consciência de cada um, antes mesmo de dar a partida no motor ou desbloquear a tela do smartphone.
Não podemos aceitar que a segurança no trânsito seja um motivo de tensão constante. Respeitar a faixa de pedestre, usar a seta, não beber se for dirigir, manter o celular guardado enquanto se está ao volante — essas não são favores, são obrigações legais e, acima de tudo, atos de amor ao próximo. Enquanto tratarmos o trânsito como um campo de batalha ou uma extensão da sala de estar (onde se mexe no celular à vontade), em vez de um espaço de convivência, continuaremos reféns do medo e da irresponsabilidade.
Chega de naturalizar o absurdo. Que a próxima faixa de pedestre seja respeitada, que a seta seja usada, que o celular fique guardado no silêncio da bolsa e que o fim de semana em Maracaju seja sinônimo de alegria, e não de luto. A vida não pode ser apenas mais uma estatística.





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