Como o Brasil Perdeu a Batalha por Itaipu para o Vale do Silício
- Demis Toledo

- 24 de jan.
- 3 min de leitura
A Geopolítica da Energia na Era da Inteligência Artificial
A renegociação do Anexo C do Tratado de Itaipu (2023-2026) não é um mero ajuste técnico, mas um ponto de inflexão geopolítico e econômico que expõe vulnerabilidades estratégicas do Brasil diante de um mundo em rápida transformação. É um caso paradigmático de como a disputa por recursos estratégicos no século XXI migrou dos campos de batalha para as salas de negócios e os data centers.

1. A Mudança Estrutural: Do Monopólio ao Mercado
O cerne da questão é a transição de um modelo bilateral e administrado (a venda obrigatória do excedente paraguaio ao Brasil a preço de custo) para um modelo de mercado. O Paraguai, dono de 50% da energia de Itaipu, agora tem o direito de comercializar seu excedente no mercado livre. Isso não é uma "perda" no sentido de expropriação, mas uma profunda alteração nas regras do jogo que remove um subsídio estrutural de décadas da economia brasileira.
2. O Novo Cliente Global: A Demanda por "Energy 24/7"
A revolução da IA e dos data centers criou uma demanda global por energia constante, densa e confiável (baseload). Hidrelétricas como Itaipu são ativos perfeitos nesse novo mercado. O Paraguai, ao oferecer energia limpa, barata (custo hidráulico) e confiável, posiciona-se como um "petroestado verde" do século XXI. A atração de data centers e empresas de mineração de criptomoedas não é acidental; é uma estratégia de desenvolvimento nacional paraguaia que agrega muito mais valor do que simplesmente vender elétrons brutos.
3. Impactos em Cascata para o Brasil
Tarifas e Inflação: Como bem destacado, a substituição da energia barata de Itaipu pela energia cara das termelétricas (usinas a gás, óleo combustível) aciona um mecanismo inflacionário direto via conta de luz e custos industriais. O "subsídio invisível" acabou.
Segurança Energética: A dependência de Itaipu para o Sul/Sudeste torna o sistema brasileiro mais vulnerável. Em um cenário de escassez, o Brasil competirá no mercado spot com empresas globais cuja disposição a pagar (em dólares) é muito superior. A "garantia física" de fornecimento perde força ante os contratos comerciais.
Perda de Influência Geopolítica: Este é um ponto crucial. O "poder de barganha" brasileiro, baseado na condição de comprador único, evaporou. Assunção agora tem opções e um poderoso aliado no setor privado global (as Big Techs) e, por extensão, no apoio político dos EUA. A soberania energética paraguaia se fortalece, e a influência brasileira no Cone Sul sofre um revés significativo.
4. As Opções (Limitadas) do Brasil
A postura reativa ou nostálgica é inútil. As opções são complexas, mas necessárias:
Diplomacia Energética Ativa: Em vez de resistir, o Brasil pode buscar integrar-se a essa nova dinâmica. Propor parcerias tripartites (BR-PY-EUA/Big Techs) para investimentos em linhas de transmissão e geração complementar. Oferecer nosso próprio território (com vantagens logísticas e de escala) para receber data centers, criando um hub tecnológico regional alimentado pela energia binacional.
Aceleração da Transição Interna: A única solução de longo prazo é reduzir a dependência. Isso requer:
Expansão agressiva de renováveis intermitentes (solar, eólica) com investimento maciço em armazenamento (baterias, hidrogênio verde) para dar firmeza.
Reativação e expansão do programa nuclear para gerar energia de base constante e independente do clima.
Investimento em eficiência energética e modernização da rede para reduzir perdas.
Reforma do Mercado de Energia: O modelo brasileiro precisa se adaptar a uma realidade de preços mais voláteis e competitivos, atraindo investimentos privados para a geração sem onerar excessivamente o consumidor.
Conclusão: Um Ponto de Inflexão Histórico
A "Batalha de Itaipu" simboliza o fim de uma era na qual o Brasil era o centro gravitacional inconteste da América do Sul, capaz de estruturar acordos vantajosos com base em seu tamanho. Agora, as forças da globalização e da geoeconomia—personificadas pelo capital e pela demanda tecnológica dos EUA—reconfiguram o tabuleiro.
O Brasil não "perdeu" Itaipu para os EUA no sentido literal, mas perdeu o monopólio sobre seus benefícios. O desafio agora é abandonar a mentalidade de renda garantida e entrar na competição global por investimentos e por eficiência. A luz no fim do túnel não virá de tentar reverter o tratado, mas de modernizar nossa economia e nossa matriz energética com a mesma urgência e pragmatismo que o Paraguai demonstrou. Se não o fizermos, o cenário de custos altos, inflação energética e vulnerabilidade estratégica descrito no texto será, infelizmente, a nossa nova e sombria realidade.
O Brasil não "perdeu" Itaipu para os EUA no sentido literal, mas perdeu o monopólio sobre seus benefícios. O desafio agora é abandonar a mentalidade de renda garantida e entrar na competição global por investimentos e por eficiência. A luz no fim do túnel não virá de tentar reverter o tratado, mas de modernizar nossa economia e nossa matriz energética com a mesma urgência e pragmatismo que o Paraguai demonstrou. Se não o fizermos, o cenário de custos altos, inflação energética e vulnerabilidade estratégica descrito no texto será, infelizmente, a nossa nova e sombria realidade.








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